Contra Parede: Grafiteiro fala sobre articulação Perusferia

Grafite 2

Idealizador do Projeto Perusferia, Guetus afirma em entrevista que “o propósito do projeto é tornar o bairro de Perus uma grande galeria de arte, dando prioridade aos becos e vielas, com escritores de rua de todos os lugares do Brasil”.

Grafiteiro desde 1999, Danillo Fernandes dos Santos – mais conhecido como Guetus, reside no bairro de Perus desde que nasceu. Seu primeiro contato com à arte urbana foi durante o ensino médio em um programa que atualmente é chamado de Escola da Família.

A partir desta ideia o primeiro encontro com a temática “Ativismo no Beco” aconteceu em 2009, na Travessa do Cambaratiba próximo a estação Perus da Linha 7 Rubi. O nome “Perusferia”, nasceu em uma roda de amigos a caminho de um jogo de futebol, com objetivo de unificar o nome do bairro aliado ao termo periferia. O evento na “viela do Quilombaque” reuniu cerca de 100 grafiteiros. Além de dar visibilidade aos graffiti, foi palco para o contato com hip hop, teatro, rap e resgate da cultura negra.

A primeira edição foi fomentada pelo Instituto Ecos que disponibilizou recursos para estruturação e alimentação dos artistas. Tendo a violência contra a mulher como temática abordada, hoje quase 7 anos depois, o mural de graffiti permanece intacto, contando apenas com o desgaste causado por exposições climáticas. No bairro de Perus, Danillo é protagonista quando o assunto é graffiti, pois além de colorir as ruas do bairro, ele pratica a desconstrução do vínculo da manifestação artística junto ao vandalismo.

Foto: Acervo pessoal de Danillo
Foto por Danillo Fernandes

De acordo com Danillo “o graffiti ainda está vinculado ao vandalismo, porque esta é sua base. Ele nasceu do protesto e da necessidade de vincular à arte a locais de grande acesso”. Atualmente, sua principal preocupação é propagar não apenas os desenhos e tags, mas a cultura, sua origem e essência. Porque arte sem essência não é arte, é uma mera reprodução.

Preocupado com o processo acima do resultado final, ele informa que “este é o problema da nova geração, não só de graffiteiros, mas de todos os elementos da cultura urbana e afrodescendente. As pessoas disseminam sem ao menos saber a sua história”. Segundo ele “para nova geração falta a essência. Não é apenas desenhar, é desenhar com propriedade de base”.

Dono da página oficial no Facebook – Perusferia Graffiti, o Danillo é responsável por todo o processo de organização dos eventos, contato dos participantes, administração dos recursos, preparação da parede que será grafitada e divulgação da arte pronta nas redes sociais. Ele afirma que “é um processo cansativo”. “Eu gostaria de chegar no muro e só pintar, mas a gente não consegue né? ”, falou entre risos.

Além de desenvolver o trabalho voltado ao graffiti na comunidade, Danillo que já foi educador social, hoje integra o quadro de participantes do Projeto Mapas Culturais, que busca disseminar a cultura a crianças e adolescentes que residem em abrigos. Com salário fixo, advindo do abrigo, as despesas para graffitar os muros não ficam por conta do Guetus, porque segundo ele:

“o material para execução dos eventos normalmente é doado pelos próprios moradores do local. Além disso, armazenamos durante o ano!”.

Por Leandro Imortal
Por Leandro Imortal

Apesar de não ser fomentado pelo poder público, a ideia do Perusferia é exercer também uma função social junto ao bairro, voltada a reflexão diante da arte, a crítica e a revitalização dos pontos esquecidos do Bairro. Quando questiono se ele não sente falta de apoio do governo, ele afirma: “A gente faz nossas correrias, a gente faz do nosso jeito. Eu gosto de ver o que temos na mão e o que a gente consegue fazer com isso, e o resultado sempre ultrapassa o esperado”.

Mesmo sem patrocinadores, o grafiteiro dissemina junto a outros coletivos do bairro, o trabalho de resgate da essência da cultura urbana e quando pergunto quando ele deseja se aposentar, ele responde: “Enquanto eu tiver forças, eu vou continuar”. Este é um movimento polêmico, porque por um lado temos, está manifestação como artística e por outro temos como poluição visual, mas desconstruir o estereótipo e abrir margem para um outro olhar, é um trabalho a ser desenvolvido a longo prazo, não só no grafite, mas em qualquer outro movimento urbano.

 

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